quarta-feira, 11 de maio de 2011

FERNANDO
PESSOA

           HORA ABSURDA                                                  
O TEU SILÊNCIO é uma nau com tôdas as velas pandas...
Brandas, as brisas brincam nas flâmulas, teu sorriso...
E o teu sorriso no teu silêncio é as escadas e as andas
Com que me finjo mais alto e ao pé de qualquer paraiso...
Meu coração é uma ânfora que cai e que se parte...

O teu silêncio recolhe-o e guarda-o, partido, a um canto...
Minha idéia de ti é um cadáver que o mar traz à praia..., e
entanto
Tu és a tela irreal em que erro em côr a minha arte...
Abre tôdas as portas e que o vento varra a idéia
Que temos de que um fumo perfuma de ócio os salões...
Minha alma é uma caverna enchida p'la maré cheia,
E a minha idéia de te sonhar uma caravana de histriões...
Chove ouro baço, mas não no lá-fora...É em mim...Sou a Hora,
E a Hora é de assombros e tôda ela escombros dela...
Na minha atenção há uma viúva pobre que nunca chora...
No meu céu interior nunca houve uma única estrela...
Hoje o céu é pesado como a idéia de nunca chegar a um pôrto...
A chuva miúda é vazia...A Hora sabe a ter sido...
Não haver qualquer coisa como leitos para as naus!...Absorto
Em se alhear de si, teu olhar é uma praga sem sentido...
Tôdas as minhas horas são feitas de jaspe negro,
Minhas ânsias tôdas talhadas num mármore que não há,

Não é alegria nem dor esta dor com que me alegro,
E a minha bondade inversa não é nem boa nem má...
Os feixes dos lictores abriram-se à beira dos caminhos...
Os pendões das vitórias medievais nem chegaram às cruzadas...
Puseram in-fólios úteis entre as pedras das barricadas...
E a erva cresceu nas vias férreas com viços daninhos...
Ah, como esta hora é velha!
... E tôdas as naus partiram!
Na praia só um cabo morto e uns restos de vela falam
De longe, das horas do Sul, de onde os nossos sonhos tiram
Aquela angústia de sonhar mais que até para si calam...
O palácio está em ruínas... Dói ver no parque o abandono
Da fonte sem repuxo... Ninguém ergue o olhar da estrada
E sente saudade de si ante aquêle lugar-outono...
Esta paisagem é um manuscrito com a frase mais bela cortada...

A doida partiu todos os candelabros glabros,
Sujou de humano o lago com cartas rasgadas, muitas...
E a minha alma é aquela luz que não mais haverá nos
candelabros...
E que querem ao lago aziago minhas ânsias, brisas fortuitas?...
Por que me aflijo e me enfermo?...Deitam-se nuas ao luar
Tôdas as ninfas... Veio o sol e já tinham partido...
O teu silêncio que me embala é a idéia de naufragar,
E a idéia de a tua voz soar a lira dum Apolo fingido...

Já não há caudas de pavões tôdas olhos nos jardins de outrora...
As próprias sombras estão mais tristes
...Ainda
Há rastros de vestes de aias (parece) no chão, e ainda chora
Um como que eco de passos pela alamêda que eis finda..
.
Todos os ocasos fundiram-se na minha alma..
.
As relvas de todos os prados foram frescas sob meus pés frios...
Secou em teu olhar a idéia de te julgares calma,
E eu ver isso em ti é um pôrto sem navios...
Ergueram-se a um tempo todos os remos...pelo ouro das searas
Passou uma saudade de não serem o mar...Em frente
Ao meu trono de alheamento há gestos com pedras raras...
Minha alma é uma lâmpada que se apagou e ainda está quente...
Ah, e o teu silêncio é um perfil de píncaro ao sol!

Tôdas as princesas sentiram o seio oprimido...
Da última janela do castelo só um girassol
Se vê, e o sonhar que há outros põe brumas no nosso sentido...
Sermos, e não sermos mais!... Ó leões nascidos na jaula!...
Repique de sinos para além, no Outro Vale... Perto?...
Arde o colégio e uma criança ficou fechada na aula...
Por que não há de ser o Norte e Sul?... O que está descoberto?...
E eu deliro... De repente pauso no que penso...Fito-te...
E o teu silêncio é uma cegueira minha...Fito-te e sonho...
Há coisas rubras e cobras no modo como medito-te,
E a tua idéia sabe à lembrança de um sabor de medonho...
Para que não ter por ti desprêzo? Por que não perdê-lo?...
Ah, deixa que eu te ignore...O teu silêncio é um leque ---

Um leque fechado, um leque que aberto seria tão belo, tão belo,
Mas mais belo é não o abrir
, para que a Hora não peque...

Gelaram tôdas as mãos cruzadas sôbre todos os peitos....
Murcharam mais flôres do que as que havia no jardim...
O meu amar-te é uma catedral de silêncio eleitos,
E os meus sonhos uma escada sem princípio mas com fim...

Alguém vai entrar pela porta...Sente-se o ar sorrir...

Tecedeiras viúvas gozam as mortalhas de virgens que tecem...
Ah, o teu tédio é uma estátua de uma mulher que há de vir,
O perfume que os crisântemos teriam, se o tivessem...
É preciso destruir o propósito de tôdas as pontes,
Vestir de alheamento as paisagens de tôdas as terras,
Endireitar à fôrça a curva dos horizontes,
E gemer por ter de viver, como um ruído brusco de serras...
Há tão pouca gente que ame as paisagens que não existem!...

Saber que continuará a haver o mesmo mundo amanhã --- como nos desalegra!...
Que o meu ouvir o teu silêncio não seja nuvens que atristem
O teu sorriso, anjo exilado, e o teu tédio, auréola negra...
Suave, como ter mãe e irmãs, a tarde rica desce...
Não chove já, e o vasto céu é um grande sorriso imperfeito...
A minha consciência de ter consciência de ti é uma prece,

E o meu saber-te a sorrir é uma flor murcha a meu peito...

Ah, se fôssemos duas figuras num longínquo vitral!...
Ah, se fôssemos as duas côres de uma bandeira de glória!...
Estátua acéfala posta a um canto, poeirenta pia batismal,
Pendão de vencidos tendo escrito ao centro êste lema --- Vitória!
O que é que me tortura?... Se até a tua face calma
Só me enche de tédios e de ópios de ócios medonhos...
Não sei...Eu sou um doido que estranha a sua própria alma...
Eu fui amado em efígie num país para além dos sonhos...
4-7-1913

Fernando Pessoa

segunda-feira, 9 de maio de 2011


Eu nunca imaginei passar por isso. Sinto me um nada , pois nada sou. Não é que eu não esteja caminhando apesar de tudo , é que estou , lentamente , dolorasamente e rancorosamente. Hoje dores de amor já não importam mais. Nao são nada, na verdade nem existem, pois o que acontece agora consome qualquer outra dor e toma lugar , e invade , e corrói, e desgraça... é maldito... literalmente. Eu mais do que nunca odeio o silêncio , odeio o tempo, a falta de oportunidade , a falsidade , a força , a unitilidade a falta de lealdade , em fim odeio tudo que admirei por ter sido ensinado por um alguém tão sujo e perverso. maldito. Eu evitei muito escrever aqui , só que preciso de alguma forma confusa e eloquente dizer , escrever , expor o que sinto. mesmo que não saiba ao certo o que é. Meus planos foram refeitos. Hoje não vivo por mim, eu idiota como achei que assim seria , como? Sempre que algo está dando muito certo na minha vida vem alguém e puxa o tapete , e eu caiu. Desta vez eu cai e me machuquei feio. Só que não adianta , eu perdi muito , mas não sozinha. Eu penso em perder calada, mas até quando? Isto está me matando. Me matando de tal forma que não penso, não estudo , não vivo .... estou sendo consumida por não saber fingir. Estou sendo maléfica aos que me rodeiam e peço sinceramente desculpas. Eu hoje sou uma confusão só. Sou raiva explodindo , tentando semear amor. Eu sou falha em tudo. Eu vou destruir , para não ser destruída. Já não há o que fazer , na verdade não sei o que fazer.... Já está na hora de virar gente grande, e não surtar , não, não mesmo. Não há quem possa me ajudar ... é um daqueles acontecimentos que acaba com tudo, não tem concerto nunca , não pra mim. E eu , vou concertar a minha forma,pois a escolha ja foi feita , e eu abro mão de tudo, ser egoísta agora já não dá mais, eu que não sei ser , já me sinto suja e desleal tanto quanto a quem me causa esse mal. De tudo que sei , vejo que sou injusta , mas não há o que fazer , pois se ferem a quem eu mais amo neste mundo , não me interessa o quão bom é pra mim... acredito que nasci pra ser sozinha , ser base, e pés de quem precisa... só não aprendi ainda a sustentar tudo isso, muita nova eu sou pra passar por estas coisas, mas não reclamo... apenas clamo , e vou rastejando por aí , horas em pé ,outras nem tanto... mais uma vez fizeram uma escolha, e essa escolha não fui eu . Só que dessa vez dói mais, dói pra sempre , não há no mundo o que apague essa dor em mim.